Terça-feira, Janeiro 18, 2005
Outro dia saí com um amigo. Ele estava empolgado para fazer algo diferente. Encontramos com ouro amigo nosso, num bar em Santa Teresa. As pessoas já estavam completamente bêbadas há horas e o calor do lugar fritava os miolos de qualquer um. Um mau humor foi invadindo o ar, mas eu e meu amigo ainda tínhamos esperança de sair dali para um outro lugar melhor.
Acabou que todo mundo resolveu ir para casa dormir ou trepar e nós ficamos abandonados a nossa própria sorte. Já era tarde para quase tudo. Estávamos com fome e rodamos a cidade em busca de um lugar para jantar. Estava tudo lotado e não havia lugar para estacionar. Foi um tempão até conseguirmos aportar no Manekineko da Cobal do Humaitá. Claro que o rodízio já tinha terminado. Tivemos que pedir tudo à la carte. Faca esvaziando os bolsos... Pedimos um combinado qualquer sem olhar muito o que ele oferecia, apenas pedindo para substituir umas peças que meu amigo de cara não suportava. Tava ok, nota 7, mas havia duas peças que me deixaram em fúria, tamanho o acinte que representavam. As chamadas Palm Shake eram nada mais nada menos que uma pasta mole e seca composta de restos de salmão, com uma fatia de palmito, molho adocicado e "atadas" com um fio do que parecia ser salsa. Pus aquilo na boca para experimentar e só não cuspi por educação. Fiquei completamente transtornada com aquele horror e não parava de reclamar com meu amigo, que se salvou de degustar aquele excremento.
Ao fim da refeição, meu amigo desenhou um círculo de molho shoyu, eu pus a peça lá dentro e ele puxou uma seta de molho para os dizeres também escritos com molho:
"ISSO É HORRÍVEL".
Na hora de pagar a conta, é claro que as máquinas de cartão de crédito estavam com problemas e a gente não tinha outro jeito de pagar. Depois de vários minutos o garçom conseguiu uma terceira máquina que passou, evitando um constrangimento maior. O legal foi que, durante o processo quase fracassado de passar os cartões, o garçom nitidamente tentava segurar o riso por conta do nosso protesto na bandeja. Se alguém consegue rir, algo de bom saiu do trágico.
Postado por Maria de Fatima às 12:05
Solta o verbo!
Terça-feira, Janeiro 11, 2005
Sempre quis me despir da minha própria pele.
REPEAT > TRACK
Over and over and over and over and over and over and over...
Não fala de Maria
Chico Buarque
1969
Não fala de Maria
Maria lembra mar
Que lembra aquele dia
Que não é bom lembrar
Que dia, que tristeza
Que noite, que agonia
Que puxa a correnteza
E traz a maresia
E bate aquele vento
Que lembra um assobio
Que lembra um sofrimento
Que eu não merecia
Não fala não, te esconjuro
Que só de imaginar
O tempo fica escuro
E o espanto agita o mar
Que lembra aquele dia
Que lembra uma canção
Que faz lembrar Maria
E aí não lembro não
A coisa fica séria
É como um turbilhão
Fazendo uma miséria
No meu coração
Postado por Maria de Fatima às 17:07
Solta o verbo!
Segunda-feira, Janeiro 10, 2005
Viagem orgânica
Andei viajando pelo sul do Brasil de carro e sem pouso certo com três amigos. Estava precisando de um retiro para acalmar meu coração adoentado. Alcancei o objetivo que era voltar mais leve e com energia para fazer algumas mudanças necessárias. Pena que sempre que eu pise no meu tão amado Rio de Janeiro, seja recebida com uma chuva de bigornas de ferreiro. As bigornas que caíram na minha cabeça durante a viagem até que foram divertidas. Foram todas motivadas pela nossa falta de noção de viajar sem saber para onde numa terra que não conhecíamos. Perto da gente, Seinfeld fica no chinelo. Foram bigornas bem-vindas e muitas vezes educativas. Até trouxe uma de lembrança de um antiquário de um dos lugares que visitamos. Não vou dizer o nome do lugar para não ofender ninguém, afinal nunca se sabe quem vai estar lendo. A gente parou lá no meio do nosso percurso a esmo e isso em si foi uma bigornada pesada. A mini bigorna de relojoeiro que comprei ilustra bem isso. Durante todo o percurso até quase o extremo do Rio Grande do Sul a gente encontrou as cidades vazias. Porto Alegre estava deserta. Foi algo bizarro. Só faltava aqueles rolos de palha que circulam com o vento em filmes de faroeste. Então ficamos reclamando entre nós, querendo encontrar gente. Foi nesse lugar que a emenda saiu pior que o soneto. As ruas estavam infestadas de gente como uma praga de gafanhotos bizarros. Era uma gente muito esquisita que jorrava pelas ruas. Não era bem o que a gente estava querendo ou esperando. Não vou falar mais sobre isso porque não é o motivo deste post.
Pena que o resultado do meu retiro tenha ido pelos ares por conta da volta, mas fica a lembrança dos bons momentos vividos com amigos queridos e a doçura das gargalhadas que demos.
Vamos então finalmente ao título deste post. Quem tiver nojo de assuntos que envolvam o sistema excretor humano, por favor pare de ler. O assunto que predominou a viagem inteira foi merda. Falávamos disso o tempo inteiro por conta da prisão de ventre que acometeu a mim e à namorada de um dos meus amigos, fora a produção incrível dos meninos cujo apetite parecia insaciável. Era uma dificuldade enorme de expelir as "esculturas" desde o primeiro dia. Não sou de me preocupar com isso, mas sou extremamente suscetível a paranóias alheias. Sendo assim, a tensão da coleguinha me invadiu e as portas do meu intestino se fecharam para balanço. Aceitei a dica dela e tomei um laxante natural. Ah, como me arrependo... Teria sido melhor ficar entupida. Após um longo passeio turístico por Curitiba, o tal laxante começou a fazer efeito tardiamente. Comecei a ser atacada pela violência da fúria de Péricles (como passei a chamar os movimentos peristálticos) no meio da rua. Quanto mais andava, mais parecia que não ia chegar nunca ao hotel para me livrar daquele sofrimento. O impacto dos meus passos no chão ganhou uma força tamanha que piorava a sensação de fragilidade da contenção da carga interna. Cheguei ao hotel acompanhada de apenas um dos amigos que viajaram comigo. Ele estava consternado com a minha situação, mas não conseguia conter o riso, afinal eu estava pálida, suando frio e mordendo a alça da bolsa de tanto desespero. Quando o elevador parou no nosso andar, ele saiu correndo para abrir a porta do quarto. Entrei intempestivamente no banheiro e imediatamente emagreci alguns quilos num piscar de olhos. A situação estava tão feia que minha barriga estava extremamente redonda e esticada que eu parecia ter aplicado uma quantidade imensa de botox nela. Conseguiria passar por grávida com certeza e poderia ter participado de uma daquelas propagandas de produtos para emagrecimento rápido. A diferença entre o antes e o depois era impressionante. Num estalo passei de baiacu a modelo do Diet Shake.
Depois disso as portas se fecharam de novo e poucas vezes consegui receber e atender o chamado da natureza. Foi então que a melhor cagada da viagem aconteceu. Estávamos em Curitiba pela segunda vez, já fazendo o caminho de volta. Fomos a um rodízio de pizza para a única refeição do dia. Passando tanto tempo viajando de carro acabamos juntando o almoço com o jantar. Como sempre, as mesas a nossa volta estavam vazias. A gente fala tanta besteira que as pessoas até sentam perto de nós, mas acabam se levantando e indo sentar longe para não ouvir o esgoto de nossas bocas. Não lembro se fui eu ou o namorado da minha amiga que se levantou primeiro. Vamos contar que tenha sido ele. Sem dizer nada ficou um tempo fora e ao voltar se disse impressionado com as coisas que saíam de dentro dele. Comoção... Um tempo depois, Péricles me chamou e tive que me retirar. Sumi por um bom tempo e voltei com um grande sorriso nos lábios. Comoção maior ainda... Enfim, meu outro amigo se levantou e desapareceu por mais um longo tempo. Quando voltou, todos já estávamos aguardando-o com os dentes à mostra. Foi pena que a namorada do meu amigo não tenha participado do batismo coletivo ao restaurante. Lembro que quando saí do banheiro, senti olhares estranhos das pessoas. Os meninos disseram ter passado pela mesma coisa. Não é para menos tendo em vista a sucessão de visitas demoradas à porcelana.
Mas não acaba por aí. Apesar de ter conseguido me livrar de um pouco da carga, a grande maioria dela permanecia presa dentro de mim. Minha decisão de não mais tomar o tal laxante foi boa para não passar vergonha do tipo da que passei na primeira vez em Curitiba, mas o botox na barriga realmente estava ridículo. Eu fazia o que podia para manter a barriga murcha. Enfim, é de chocar como Péricles é caprichoso. Assim que cheguei em casa, já de volta ao Rio, o safado resolveu me golpear violentamente. Sem brincadeira, dessa vez não sobrou nada. Acho que mais um pouco e alguns órgãos teriam saído junto com a carga pesada. Virei modelo de novo.
De volta à rotina, acho que o relógio vai funcionar de novo.
Postado por Maria de Fatima às 12:44
Solta o verbo!