O post ao qual Carol se refere no Engolindo Vento é o do dia 28, com o título NA PRAIA. Postado por Maria de Fatima às 16:30 Solta o verbo! Como sempre, as situações ficam guardadas no fundo da minha memória e às vezes surgem sem avisar. Lembrei de mais um evento que só poderia ter sido vivido por Maria de Fatima.
Acho que estava na oitava série do primeiro grau, o atual ensino médio. Como quem me conheceu naquela época sabe, eu era metal e me vestia de preto, com jeans rasgados, corrente pendurada na calça, coturnos do exército, anéis de caveira com pinos pontiagudos, pulseiras de pino e usava o cabelo longo até a bunda, repartido no meio. Algumas pessoas tinham medo de mim.
Era o ano em que finalmente eu tinha conseguido fazer amigos. Eu só tinha uma, a Danielle, que era minha vizinha aqui do prédio. Foi um ano muito feliz no qual conheci pessoas maravilhosas com quem ainda mantenho os laços de amizade.
No dia em questão, eu e mais alguns amigos, não lembro bem quais, tínhamos combinado de ir à casa de um outro amigo, o Daniel, lá na Barra. Não lembro bem o que íamos fazer naquele dia, mas fomos comer alguma coisa numa loja de conveniência de um posto de gasolina perto da casa dele. Estávamos lá felizes nos deliciando com nossos salgadinhos e nossos refrigerantes. Eu tinha comprado uma coxinha e uma Coca, as quais saboreei com paixão até a hora do "caso verdade". Como boa estabanada que sou, quase deixei a coxinha cair, mas consegui segurá-la para a minha felicidade. Desta forma, foi possível continuar me deleitando com o maravilhoso petisco de loja de posto de gasolina.
Em geral deixo a bebida, ou a maior parte dela, para o final. Sendo assim, quando acabei de comer o salgado, fui beber a Coca-Cola e tive uma grande decepção: não havia nada no copo e eu lembrava que não tinha bebido quase nada. Fiquei olhando para o copo vazio com cara de quem não estava entendendo nada. Pensei: "Pô, será que alguém bebeu e pôs o copo de volta na minha mão sem eu perceber enquanto eu estava entretida com a coxinha?" Então fiquei intrigada olhando em volta para tentar descobrir quem poderia ter bebido o meu refrigerante tão amado. Outro fato a meu respeito é que fui muito viciada em Coca-Cola. Não havia o que eu não fizesse por uma Coca-Cola. Coca-Cola... Compre Coca-Cola... Depois de severos problemas gástricos diminuí bastante a quantidade e me considero curada do vício.
Voltando à vaca fria... Enquanto fazia um trabalho mental de detetive para descobrir quem poderia ter-me furtado o refrigerante, percebi que as pessoas na loja em observavam com um olhar meio estranho, meio como me considerassem um tanto lelé ou imbecil mesmo. Mais alguns segundos e eu perguntei: "Quem bebeu meu refrigerante?" Recebi respostas negativas de todos e eles não sabiam quem poderia ter sido.
Se ninguém havia bebido minha Coca, qual seria a solução desse mistério? Tchanã!!! Eis que olho para o chão e encontro à minha frente uma poça de refrigerante. É claro que eu tinha derramado a porra toda na hora que a coxinha caiu! Lógico! Tive um acesso de riso porque nenhum dos meus amigos tinha visto o fato acontecer, só os clientes da loja, que com certeza tinham toda a razão para me olhar estranho. Afinal que pessoa louca derrama todo o seu refrigerante no chão e continua comendo calmamente, como se nada tivesse acontecido, com o copo na mão, segurando-o de modo a não derramar seu conteúdo vazio? A resposta é: Maria de Fatima, claro!
... E ainda tive a audácia de achar que alguém tinha bebido o meu refrigerante. Tem cabimento? Postado por Maria de Fatima às 16:26 Solta o verbo!
Terça-feira, Outubro 28, 2003
Na praia
Depois de mais um acontecimento grave é difícil escrever as coisas que geralmente escrevo para entreter quem me lê. Mas é exatamente por isso que agora descrevo mais uma das minhas peripécias. É uma homenagem na verdade. Tenho certeza de que eles três teriam vontade de que nenhum de nós deixasse a depressão nos tomar e mudar o nosso cotidiano. Um grande abraço para vocês, que coloriram a vida de muita gente enquanto estiveram por aqui.
Eu devia ter uns treze anos. Ia sempre à praia com minha amiga e vizinha Danielle. Estávamos na flor da nossa pré-adolescência. Competíamos para ver quem ficaria mais bronzeada. Ela sempre ganhava, é claro, por razões genéticas.
Naquele dia eu tinha ido sozinha com ela à praia, coisa que meu pai não gostava de deixar por conta de sua mania de superproteção. Tinha esse menino de cabelos parafinados - moda no início dos anos noventa - que tanto eu como ela achávamos gatinho. Pois bem. Estávamos lá, na praia de Ipanema, livres, leves e soltas e nos achando o máximo. Urrú! Que liberdade sentíamos. Daí o tal menino, o qual chamávamos de Mike por não saber seu nome, estava na areia olhando para o mar esperando um momento ideal para pegar umas ondas. Eu e Dani estávamos no mar fazendo pose para o garoto que devia ter no máximo uns dezesseis anos.
Imaginem um final de tarde mágico no verão, aquele momento lindo em que o sol está se pondo e o céu está com aquele degradê maravilhoso que vai do vermelho ao laranja e passa pelo roxo. Este era o cenário do evento. Tudo parecia perfeito, como nesses seriados americanos com pessoas bonitas: céu lindo, brisa nos cabelos e uma praia na Cidade Maravilhosa. Enfim, estávamos no mar nos fazendo de pirralhas gostosas dando uns mergulhos. Depois de alguns instantes, resolvemos voltar para a areia, afinal o movimento é bom para se fazer notar e a andada de volta seria uma ótima oportunidade para que Mike nos visse. Claro que eu tinha que fechar a tarde com chave de ouro. Comecei a andar de costas para o mar, não sei se me lembro bem, mas talvez a Dani tenha dito alguma coisa, mas era tarde demais e eu não estava prestando a menor atenção de qualquer forma. Uma onda me nocauteou por trás e fiquei revolvendo no fundo por um bom tempo. Quando consegui vir à tona, todo o meu "glamour" tinha ido para a cucuia. Levantei com os cabelos - sempre os tive longuíssimos - completamente emaranhados e cheios de areia jogados de qualquer jeito no meu rosto. Parecia um monstro aquático de filme B, um amontoado de algas em forma de ser humano. Cambaleante e meio zonza fui andando para a areia e, como se não bastasse a dimensão da gafe, encontrei Dani se rasgando de tanto rir. Ela nunca conseguia se conter. Não a condeno, muito pelo contrário, gostaria de poder me ver de longe passando por essas situações.
Continuei indo à praia e vivendo momentos semelhantes no mar, mas já não me importava mais em fazer pose para os gatinhos, muito menos para o Mike. Afinal de contas eu me manquei de que não iria conseguir controlar minha coordenação motora mesmo. Postado por Maria de Fatima às 13:12 Solta o verbo!
Quinta-feira, Outubro 23, 2003
Primeiro foi Sérgio. Em seguida, Antônio. Ontem Meri Fátima. Três pessoas maravilhosas com certeza, com quem eu era ligada de formas diferentes. Intensidades relativas. Sérgio: o considerava meu tio. Me viu crescer e sempre conseguia fazer piada com tudo. Fez parte importante da minha deliciosa infância e deixou a lembrança da importância de lidar com as coisas com bom humor para reconhecer o prazer dos detalhes mais simples. Antônio tinha muito amor pela vida e nunca se queixava de nenhum de seus inúmeros problemas. Eu não era íntima dele, mas com certeza sua presença era sempre querida. Tenho por ele uma grande admiração e uma saudade que me ajudou a acordar para tudo aquilo que eu estava desperdiçando. Meri... Lembro apenas de tê-la visto uma vez. Não lembro a ocasião, só que era dia de festa. Era mãe de uma grande amiga que amo muito. Lembro que naquele dia, no meu carro, nos identificamos por sermos xarás: Meri Fátima e Maria de Fátima. Lembro de termos gostado uma da outra de cara e de termos dito que nos encontraríamos de novo. Nunca mais nos vimos. Lembro da vivacidade, da beleza e da jovialidade dela. Queria tê-la conhecido de fato. Sinto culpa por minha ausência, por não ter participado de uma grande etapa da vida da filha dela, pelo desdém com o qual tratei muita coisa na minha vida durante os últimos anos. O conforto que fica é acreditar que nunca é tarde enquanto estamos por aqui. Postado por Maria de Fatima às 16:37 Solta o verbo!
Segunda-feira, Outubro 20, 2003
O momento tropeço total da semana passada está relatado no blog da Ciça, no post do dia 17 de outubro, intitulado PARA SAIR DO BURACO.
Minha desorganização mental habitual me deixou fora daqui por alguns dias, mas vou contar para vocês a minha versão desse momento que só poderia ter acontecido assim inexperado, inacreditável como todos os outros.
Felizes estávamos todos por causa da maravilhosa projeção na mídia que o lançamento da revista Paralelos estava tendo semana passada. Na quinta, 16 de outubro, tínhamos que tirar fotos para o JB e para O Globo. Caí meio de pára-quedas nessas fotos, afinal quase ninguém lê o que escrevo e não faço parte da revista. Porém, como ia tocar com o João e a Ciça no sábado, fui convidada para aparecer também.
Combinamos de nos encontrarmos no centro para irmos juntos. Estavam todos muito cansados e, vivendo esse momento de guerra por sobrevivência, o ar nos nossos rostos era um tanto abatido, mas estávamos contentes de estar juntos.
O primeiro tropeço foi chegar ao ponto de encontro e dar de cara com o estabelecimento fechado. Graças à tecnologia pudemos escolher outro lugar e comunicar aos interessados. Mesmo assim não foi muito confortável a espera, porque tudo que era restaurante da Cinelândia estava fechado naquela hora da manhã. Ficamos em pé esperando. Depois de alguns minutos a Mara chegou e disse que o Augusto ia passar de carro para nos dar uma carona até o Armazém do Rio.
Maravilha. Confraternização de parte da mais nova e promissora safra de escritores do Rio de Janeiro - Cecilia Giannetti, João Paulo Cuenca, Mara Coradello, Augusto Sales - e eu, Maria de Fátima, o papagaio de pirata. Parecíamos cinco crianças animadas com a excursão do colégio. Em um ponto do trajeto Mara diz, comentando uma conversa com seu pai: "Pai pode ficar tranqüilo que não estamos indo tirar foto para página policial." Guardem esta frase para relacioná-la ao desfecho de nossa história.
Lá chegando, era a hora de estacionar. De repente um barulho e o carro se inclinou drasticamente para a frente. Ninguém do lado direito conseguia abrir as portas por conta do grau de inclinação do carro. Saímos todos pela esquerda para ver o que tinha acontecido e pensar no que fazer para reverter a situação. O Augusto não viu um bueiro aberto e o carro ficou preso com a roda direita da frente no buraco. Ele tentou dar ré, mas a tração do carro dele é nas rodas dianteiras, então não houve força pra sair. A sorte foi que se tratava de um carro muito leve, então seria tranqüilo erguê-lo para fora do buraco. Foi o que fizemos. Cada um se posicionou e conseguimos liberar o carro. O problema foi que a força que tivemos que fazer para concluir a operação de resgate foi de tal intensidade que o veículo começou a se dirigir para o meio da rua. E a rua estava com um fluxo elevado e rápido de ônibus. Num frio reflexo, me lancei na traseira do carro e fiquei fazendo força para conter seu movimento. Foi aí que o caos se instaurou. Cecilia e Mara soltaram o carro. Ciça, em pânico, ficou muda e sem ação enquanto Mara gritava desesperada. João ainda tentou por um momento puxar o carro, mas desistiu inaginando que haveria um acidente de proporções apocalípticas e que a melhor coisa a fazer seria largar tudo e se afastar para não ser atingido pelos destroços. O Augusto estava com um olhar absorto e só foi me ajudar na traseira do carro depois que um ônibus enorme em alta velocidade quase abreviou a minha existência por um palmo. Enfim, conseguimos juntos fazer o carro sair do meio da rua e em mais um frio reflexo, abri calmamente a porta do carro e puxei o freio de mão. No meu campo de visão as coisas não pareciam tão assustadoras, até porque eu estava de costas e não tive a dimensão do que estava se passando da mesma forma que eles que estavam de frente para a rua.
No fim de tudo tivemos um acesso de riso, afinal com quem mais uma coisa dessas poderia acontecer?
É Mara, foi por um palmo que a gente não foi parar na página policial.
Agora vejam a foto de O Globo no Prosa e Verso do dia 18 levando esse episódio em consideração. Com certeza a sensação será diferente.
Hoje na PROSA PLUGADA da Primavera dos Livros às 19h Cecilia Giannetti e João Paulo Cuenca lerão trechos de seus livros junto com Mara Coradello, Paloma Vidal, Crib Tanaka, Alessandra Archer, Jorge Rocha e Maira Parula. Após a leitura, às 20h, Cecilia, João Paulo e eu dividiremos o palco no show TE CONHEÇO DE ALGUM LUGAR. A programação completa pode ser consultada no site da Primavera. Postado por Maria de Fatima às 12:19 Solta o verbo!
Sábado, Outubro 11, 2003
Pois bem, criança tem energia inesgotável. Parece que a gente quando é pequeno é invencível e invulnerável, talvez até quase imortal. É dessa época de muitas doces lembranças que trago aqui mais uma das minhas histórias.
Essa aconteceu aqui no Rio, na praça entre Ipanema e Leblon chamada Jardim de Alá. Não lembro exatamente quantos anos tinha quando ganhei minha primeira bicicleta, mas foi nessa altura que a falta de conhecimento das leis da física me fizeram provocar o acontecimento em questão.
Meu pai sempre levava eu e meu irmão para andar de bicicleta na praça aos domingos. Ficávamos a tarde inteira andando em círculos e imaginando que estavamos viajando pelo mundo em duas rodas. Nossa como sinto falta da imaginação que eu tinha naquela época. Muito bem, naquele domingo tudo parecia normal. Eu e maninho dando voltas na praça. É claro que eu tinha umas manias, como toda criança, de me arriscar. Nada como uma boa aventura. Tive essa idéia de fazer manobras em alta velociadade na praça e resolvi que iria fazer uma curva muito rápida entre uma árvore e o meio fio. Obviamente não houve tempo para fazer a curva e bati de frente na árvore. A roda da frente quicou para trás e caí no chão com a bicicleta por cima de mim. Mas não foi aí que aconteceu o problema. Apesar da grandeza do acidente e da perspectiva dramática que ele assumiu para quem o viu a distância, nada sério aconteceu. Fora o susto, não tive nenhum arranhão.
Então há de se perguntar: qual foi o grande evento ao qual se refere essa história toda? Tudo isso está ligado à tal perspectiva dramática que meu irmão teve ao me ver voando com a bicicleta e caindo no chão. O garoto ficou tão preocupado que veio ao meu socorro a toda velocidade. Eu estava lá perfeitamente bem, apenas me recuperando do susto quando, com todo seu desepero para me acudir, o jovem rapaz acabou passando com sua bicicleta na minha cabeça. Eu nunca tinha imaginado que aquelas estrelinhas que a gente vê girando em volta da cabeça das personagens dos desenhos animados pudessem existir de fato. Sim, eu vi as estrelinhas. Fiquei tão impressionada e fora de órbita que nem consegui ficar chateada com maninho. Enquanto meu pai me dava apoio para que pudesse voltar para casa sem cair - afinal eu estava sem o menor poder de equilíbrio - só conseguia contemplar as estrelinhas se movendo ao meu redor com um sorriso no rosto. Tão bonito... Só não lembro se havia passarinhos também. Postado por Maria de Fatima às 15:56 Solta o verbo!
Segunda-feira, Outubro 06, 2003
Vou demorar mais um pouco. Tenho muitas histórias pra contar, mas não é a hora pra elas agora. Postado por Maria de Fatima às 03:33 Solta o verbo!