Tropeçando na Chuva
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Quem sou

Quem?: Maria de Fatima
Quando?: século passado
Por que?: terapia ocupacional

Bom dia!








Segunda-feira, Setembro 29, 2003

Ainda não consigo lembrar de nada engraçado pra contar. Tem aquelas horas que vem aquela pontada no peito e o ar falta. Ao mesmo tempo cresce em mim uma necessidade de reconhecer a importância de cada momento e de cada um. As coisas ganharam um sentido muito maior enquanto muitos dos nós na minha cabeça perderam a razão de ser. É tudo tão frágil. O discernimento do que vale a pena é fundamental. Não tem porque aumentar ou diminuir o tamanho e a intensidade das coisas, dos acontecimentos. Quero ver tudo como é, ser receptiva e saber ceder.
Postado por Maria de Fatima às 12:19
Solta o verbo!

Sexta-feira, Setembro 26, 2003

Não tem graça nenhuma. Não é pra ter graça nenhuma, nem pra entreter ninguém.

Não posso querer ter a pretensão de achar que qualquer coisa que eu faça tem um mínimo valor que seja depois do que vi e do que vivi hoje.

Não dá nem pra brincar com essa história de volta por cima porque o que aconteceu não tem medida. Na praia hoje, eu e uma amiga vimos um cadáver na orla de Ipanema. Pra nós era um desconhecido. Uma pessoa estranha a nós que nos tirou o fôlego por um minuto, mas por quem não sentimos muito mais do que uma pena passageira. Um estranho que nos sensibilizou, não mais do que poderia ter sido entre pessoas sensíveis, mas nem tanto tendo em vista a realidade que nos rodeia.

Num bar, no aquecimento pra um festejo em Botafogo, encontrei um amigo. Nos cumprimentamos calorosamente como sempre. Um tempo depois ele me disse que um amigo nosso tinha morrido afogado na praia de Ipanema. Demorei uns minutos, mas fiz a ligação e acabei descobrindo que aquele cadáver era o corpo do nosso amigo. E eu tinha achado que era um daqueles moços idosos que sem explicação acabam se esvaindo naturalmente. Era ele. Não era um estranho qualquer. Mesmo que qualquer estranho seja singular e insubstituível. Era ele. Eu o vi enrolado em um saco de lixo sem saber quem era. Era ele. Era um pedaço de muita gente que tava ali, sem movimento, sem pulso, sem respiração.

Postado por Maria de Fatima às 05:19
Solta o verbo!

Quinta-feira, Setembro 25, 2003

Tem sempre aquelas coisas de que a gente lembra assim do nada. Pois é, estava aqui fazendo a minha contabilidade doméstica quando lembrei de mais um dos meus episódios de criança.

Pois bem, sou filha de português, por isso volta e meia visito a terrinha para ver minha avó, meus tios e primos. A história em questão se passou lá na ocasião das férias de julho. Eu era louca por essa época do ano, porque sabia que iria passar um mês em completa liberdade brincando na natureza. Minha avó mora em uma aldeia humilde em Trás-os-Montes, no norte do país, longe da loucura cotidiana da vida urbana, onde só há congestionamento de gado.

Minha mãe sempre foi uma costureira de mão cheia e adorava fazer roupas para mim e para o meu irmão. Usava sempre tecidos coloridos e fazia combinações às vezes esdrúxulas, mas com certeza divertidas. Adorava as roupas que ela me fazia. Naquele dia eu tinha passado o dia brincando com minhas primas e meu irmão, então estavamos os três sujos de lama da cabeça aos pés. Quando chegávamos em casa das nossas aventuras, minha mãe nos perguntava se voltávamos de alguma guerra. Cheguei em casa, tomei banho e vesti um lindo conjunto xadrez bastante colorido feito por mamãe. Estava impecável e pronta para o jantar em família. Estavam todos reunidos, só faltava meu irmão. Minha mãe pediu que eu o chamasse, então fui atrás dele. Era uma boa caminhada até o pasto onde ele e minha prima estavam tomando conta das vacas do meu tio. Quando lá cheguei fiz o comunicado de que o jantar ia ser servido e constatei que meus sapatos estavam desamarrados. Foi nesse momento que o evento se consumou. Lá o sistema de irrigação ainda é como há centenas de anos. A água é desviada de uma fonte, represada em um tipo de tanque de barro e liberada de acordo com a necessidade. Após liberada, a água se subdivide em pequenos córregos que por sua vez se dividem em outros e finalmente em fluxos capilares dentro dos pastos de das lavouras. O que tudo isso tem a ver com o que me aconteceu? Continuo para esclarecer. Depois de perceber que meus cadarços estavam desamarrados, sentei num muro e me inclinei para amarrar meus tênis. O problema é que eu tinha me esquecido de que a cabeça é uma parte muito pesada do corpo e acabei caindo. O problema é que de todos os lugares que eu podia ter escolhido para sentar, é claro que tinha que escolher justo a parte por baixo da qual passava um fluxo de irrigação. E pasmem, quando sentei nenhuma água passava por ali. Foi só sentar que a água surgiu pela abertura. Obviamente caí dentro d'água. O mais interessante foi que, como era muito raso, fiquei só com um lado do corpo molhado, ou melhor, completamente encharcado. Levantei do chão chorando, não de dor, mas porque logo depois de tomar banho e me vestir, minha mãe tinha enfatizado bem que era para eu tomar cuidado para não me sujar de novo. Fiquei decepcionada, triste e receosa da reação dela. Mas o receio não durou muito tempo. Quando apareci toda pingando de um lado só, chorando e fazendo drama, ela me perguntou o que tinha acontecido e ao invés de brigar comigo caiu na gargalhada. O jantar estava delicioso.

Postado por Maria de Fatima às 14:00
Solta o verbo!

Domingo, Setembro 21, 2003

Pois não é que aconteceu de novo? Ontem fez um sol lindo, uma amiga minha estava na praia e me chamou para encontrar com ela. Não fui porque tinha que fazer umas coisas no computador e ainda não tinha saído pra comprar um biquini mais decente do que o velho que tenho. Enfim, já estava tão seca de vontade de ir à praia e cair no mar que depois de terminar meus afazeres fui ao shopping com uns amigos para comprar o tão aguardado biquini. Depois do shopping fui à uma festa de aniversário de uma amiga dos tempos do colégio e encontrei vários amados amigos de quem sinto saudade. Contaminei todo mundo com a minha animação pela ida à praia hoje e combinei com todos de irmos pegar um sol na Barra. Então o que acontece? É claro que o dia amanheceu nublado. Sabe o que é mais chato ainda? O sol está ameaçando a aparecer, mas ainda não deu as caras de fato. O problema é que tenho um compromisso mais tarde e já estou vendo que quando ficar tarde para mim é que ele vai aparecer. Vamos ver o que acontece.
Postado por Maria de Fatima às 14:24
Solta o verbo!

Quinta-feira, Setembro 18, 2003

Você já viveu dias em que tudo o que você faz acontece ao contrário? Existem aquelas situações inexplicáveis que parecem no fundo elaboradas por uma mente superior que nos manipula como marionetes. E o objetivo disso? O maravilhoso prazer do riso. Só pode ser. Não é à toa que existe a lei de Murphy. Mas existem também pessoas como eu que naturalmente já facilitam a diversão das entidades titereiras e dos mortais que dividem o planeta comigo. Exemplo disso é um dos incidentes ocorridos comigo no decorrer da minha tão singela existência. Vamos ao caso então.

Eu devia ter no máximo uns dez anos na época e é claro que detestava ir à escola. Aquele dia começou bizarro. Minha mãe sempre disse que Deus nos faz pagar pela língua e que devemos ter muito cuidado com o que dizemos, porque os castigos de Deus podem ser imediatos. Enfim, nesse dia até cheguei a acreditar nisso. Levantei da cama como sempre às seis e meia para me vestir para o colégio. Como cresci rápido demais, sempre tive problemas com cordenação motora. Sendo assim, naquele dia a tal da coordenação me faltou de uma forma que me tirou do sério. Eu simplesmente não conseguia amarrar meus próprios sapatos e fiquei besta com isso. Teve um momento que não me contive e gritei - "Que inferno!" - de tanta raiva que eu senti por não ser capaz de fazer uma coisa tão básica e já tão consolidada. Assim que terminei de proferir aquela blasfêmia, como diria mamãe, a lâmpada do teto do meu quarto explodiu e caiu na minha cabeça. Imagine como fiquei pasma pensando na força dos poderes divinos. E lógico que quando contei para mamãe o fato ocorrido, ela disse - "Tá vendo? O que foi que eu te falei?"

Fui para a escola e tive um dia normal dentro do que era normal para mim naquela época de tropeços, hematomas, joelhos e cotovelos ralados.

Postado por Maria de Fatima às 10:39
Solta o verbo!

Terça-feira, Setembro 16, 2003

Se o dia amanhece ensolarado, visto meu biquini e saio para a praia. Assim que ponho os pés na rua começa a chover.
Postado por Maria de Fatima às 17:30
Solta o verbo!